Atravessamento
03 de abril de 2024
Existem momentos em que somos atravessados por algo que não pediu licença para entrar. Uma palavra dita em um tom inesperado, um olhar que dura um segundo a mais, uma ausência que pesa mais do que qualquer presença. O atravessamento acontece quando o que está fora encontra uma fissura no que acreditávamos ser inteiro — e, sem aviso, nos desorganiza.
Vivemos grande parte do tempo na ilusão de que somos donos de nós mesmos. De que a nossa identidade é uma muralha estável, construída ao longo dos anos com escolhas, valores e certezas. Mas a verdade é que a muralha tem brechas. E é por essas brechas que o outro entra. Não o outro genérico, mas aquele que nos toca de um jeito que desarma. Uma pessoa, uma perda, um encontro, uma palavra mal compreendida, um silêncio que diz tudo.
O atravessamento não é confortável. Ele desaloja. De repente, você não é mais quem pensava ser. Algo se deslocou dentro de você — um móvel da alma mudou de lugar — e agora o espaço parece diferente. Você precisa se reorganizar, mas não sabe como. O que antes fazia sentido perde a graça. O que parecia certo já não convence.
Quando o outro nos atravessa
Talvez a forma mais comum de atravessamento seja por meio de outra pessoa. Alguém chega e, sem esforço aparente, mexe com estruturas que acreditávamos consolidadas. Pode ser um amigo que diz exatamente o que precisávamos ouvir, um estranho com quem trocamos duas palavras na fila do café, ou alguém que amamos e que, de repente, já não cabe mais na ideia que fizemos dele.
O amor, aliás, é um grande atravessador. Ele não respeita cronogramas, não pede permissão, não se importa com os planos que traçamos. Chega e bagunça tudo. Nos faz agir de formas que não reconhecemos, sentir coisas que não esperávamos, desejar o que nem sabíamos que existia. Amar é consentir em ser desorganizado por alguém.
Mas também há o atravessamento da ausência. Quando alguém vai embora — seja por escolha, pela vida ou pela morte —, o vazio que ela deixa não é apenas um buraco. É uma presença negativa que ocupa espaço, que nos pressiona, que nos obriga a encontrar novos arranjos para continuar. A saudade é um tipo de atravessamento que insiste.
Os fios do desejo
Outro grande agente de atravessamento é o desejo. Viver é estar em estado de desejo, mas nem sempre percebemos como ele nos ultrapassa. Desejamos coisas contraditórias: segurança e liberdade, pertencimento e solidão, permanência e mudança. Esse conflito interno nos rasga, nos empurra em direções opostas, e o resultado é um desconforto que não cessa.
Na psicanálise, fala-se em atravessamento do fantasma — o momento em que nos damos conta de que as histórias que contamos sobre nós mesmos não passam de ficções necessárias. Quando isso acontece, algo se quebra. A fantasia que sustentava nossa existência perde a força, e ficamos diante de um vazio que assusta e liberta ao mesmo tempo.
Não é fácil sustentar esse lugar. Muitos de nós preferem recuar, tapar as brechas com novas certezas, evitar o desconforto. Mas quem já foi atravessado por dentro sabe que não há como voltar atrás. A estrutura não é mais a mesma. Mesmo remendada, a rachadura fica.
Formas de atravessamento
Ao longo da vida, somos atravessados de muitas maneiras. Algumas delas:
- Pelo outro: quando alguém nos toca de um jeito que desorganiza as nossas certezas, nos fazendo ver o mundo de outro ângulo.
- Pelo desejo: quando aquilo que queremos nos ultrapassa, revelando que não somos senhores dos nossos anseios.
- Pela perda: quando um vazio se instala e passa a nos constituir, forçando-nos a reaprender a viver.
- Pelo silêncio: quando o não-dito ecoa mais alto que qualquer palavra, e o que não foi falado fala por si.
- Pela arte: quando um poema, uma música ou um quadro nos desmontam e montam de novo, sem pedir autorização.
- Pelo tempo: quando olhamos para trás e vemos que não somos mais a pessoa que fomos, sem saber exatamente quando a mudança aconteceu.
O que fazer com o que nos atravessa?
Não há manual. O atravessamento não vem com instruções. Talvez o único movimento possível seja acolher a desorganização, permitir que o chão se desfaça sem tentar reerguê-lo imediatamente. Ficar um tempo no vazio, sem pressa de preenchê-lo. Deixar que as novas formas nasçam do próprio desmoronamento, em vez de impô-las de fora.
Há uma beleza estranha nesse processo. Quando algo nos atravessa, ganhamos uma profundidade que não tínhamos. A superfície lisa é substituída por uma textura áspera, cheia de relevos. Passamos a carregar as marcas do que nos tocou, e essas marcas são também a prova de que estamos vivos.
Não se trata de buscar o atravessamento — ele vem sozinho, na hora que menos esperamos. Trata-se, talvez, de aprender a reconhecê-lo quando chega. De não fechar as portas com medo de que entre o que não controlamos. De confiar que o que nos desorganiza também pode nos reorganizar em um arranjo mais verdadeiro.
Perguntas que o atravessamento nos deixa
Ao final, ficamos com perguntas. Algumas delas:
- O que realmente me tocou e não me largou mais?
- O que estou evitando deixar entrar com medo de me perder?
- Que parte de mim precisa ser desfeita para que algo novo possa nascer?
- Como sustentar o desconforto do desconhecido sem correr de volta para o que é familiar?
Não há respostas definitivas. O que importa é que as perguntas continuem vivas, cutucando, nos impedindo de adormecer em uma versão congelada de nós mesmos.
Conclusão: o que não passa
O que nos atravessa não passa. Fica. Transforma. Mesmo que não falemos sobre isso, mesmo que tentemos seguir como se nada tivesse acontecido, algo mudou. O atravessamento é uma cicatriz invisível que nos lembra, todos os dias, que não somos blocos monolíticos. Somos permeáveis, abertos, em constante troca com o mundo e com os outros.
Talvez a tarefa da vida não seja construir uma fortaleza inquebrável, mas aprender a habitar as brechas. Deixar que entre luz, vento, o outro, o desejo, a perda, o silêncio. Confiar que, mesmo desorganizados, podemos nos recompor — não como éramos antes, mas como algo que nunca existiu e que só agora pode surgir.
O atravessamento é, no fundo, um convite. Um convite para não permanecermos os mesmos.